terça-feira, 19 de abril de 2011

19/04/2011 - 125 anos de nascimento de Manuel Bandeira.


Arte de Amar

Manuel Bandeira
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

19/04/2011 - Quatro anos da morte de Erickson Luna.


Claros Desígnios
Erickson Luna
Os vícios tragam-me depressa
à parte a rebeldia que me torna em jovem

Claros são os meus desígnios
é-me incontida a busca dos momentos
ao passo que me são estranhas
as vocações que emergem desses tempos

Diuturnos rituais à impotência
as existências curvam-se às idades
e se acrescenta à ancestral obediência
a iminência de também ser ancestral

A tal sorte a mim me cabe lamentar o pouco-a-pouco
a morte tarda dos longevos
sorrir da vida e a que ela se presta
tão mais intenso quanto perto o fim

Os vícios tragam-me depressa
à parte a rebeldia que me torna em jovem.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Poesia - Carlos Drummond de Andrade.


Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Em Sentimento do mundo
São Paulo: Record, 1999

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Alba - Geir Campos

 
Não faz mal que amanheça devagar,
as flores não têm pressa nem os frutos:
sabem que a vagareza dos minutos
adoça mais o outono por chegar.
Portanto não faz mal que devagar
o dia vença a noite em seus redutos
de leste - o que nos cabe é ter enxutos
os olhos e a intenção de madrugar.

Identidade - Carlos Queiroz Telles


Cabelos molhados,
sol encharcado,
pele salgada,
vento nos olhos,
areia nos pés.

O corpo sem peso
é nuvem á-toa.
O tempo inexiste.
A vida é uma boa!

Mergulho na água
azul deste céu.
Sou peixe de ar.
Sou ave de mar.

Mergulho em mim mesmo,
silêncio profundo.
Sou eu e sou Deus
de passagem no mundo,
nadando sem rumo
entre conchas e paz.

In "Sonhos, grilos e paixões"
São Paulo: Moderna, 1995.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Canção para uma valsa lenta - Mário Quintana.


"Minha vida não foi um romance...
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa... de encanto... de medo...

Minha vida não foi um romance
Minha vida passou por passar
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.

Minha vida não foi um romance...
Pobre vida... passou sem enredo...
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!

Minha vida não foi um romance...
Ai de mim... Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso... de um gesto... um olhar..."
 
Fonte: http://interludioemflor.blogspot.com/

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Ressurreição - Luna Freire


Então renasci. Cruzei a ponte que me separa do abismo. Cindi a nuvem negra em gotas de orvalho. E espalhei nos ventos as cinzas de mim.

Então renasci. Cruzei a ponte que me separa das águas. Amarrei tempestades em navios assombrados. Mergulhei no oceano de mim.


Lancei anzóis num rio de sonhos perdidos. Pesquei um fóssil. Uma pedra. Um sapato. E a sereia sorriu no fundo do mar. Por que sonhos não se pescam, se plantam. E há uma longa espera até a germinação.


Então deitei sementes no solo e no vento. E elas haverão de brotar em mim uma primavera...


Construí novas pontes, para celebrar a passagem.

Construí novas pontes para celebrar a plantação.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011


Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acaba todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.

Cecília Meireles

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011


A realidade que eu vejo
Não serve para explicar
O que eu sinto.
Quero um milhão de sóis
De Van Gogh
A brilhar entre os corvos
Quero luas girando
Num campo de trigo
Quero a mais louca
Paz
De quem descobriu
Sua essência.
Num mundo de robóticos
E que só dizem
Sim
Eu quero ser
A placa de contramão!

Carlos Maia
31/01/11

Ilustração: Van Gogh

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010



A poesia entrou na minha vida
Como se fosse o mel silvestre
Escorrendo
Do tronco da árvore morta
No chão.
A poesia entrou na minha vida
Como se fosse um furacão
Arrasando tudo
Sem pedir licença...
A poesia entrou na minha vida
Como se fosse
O Sol
Descortinando
A madrugada.
Carlos Maia
07/10/10