segunda-feira, 9 de maio de 2011

Ácido na corrente elétrica - Parte IV



                   27/12/98 – Tá na hora de dar uma parada neste relato para eu poder acumular um pouco mais de conhecimento (tanto de pessoas que passaram a vida pesquisando quanto o conhecimento empírico do mundo); estou lendo no momento “O Fenômeno Humano” de Teilhard de Chardin. Eu não quero tornar este diário uma coisa chata, com altos e baixos intermináveis. Nesse mês de Dezembro eu bebi novamente após um ano e dois meses. Bebi duas vezes. A primeira eu passei cerca de 40 minutos no supermercado Bompreço olhando os vinhos e com medo de beber novamente, não era aquele tipo de vontade de ficar embriagado, e sim uma vontade de saborear e ter prazer na degustação de um bom vinho, terminei comprando um vinho safado danado, Piagentini, tomei uma garrafa de 750 ml. A segunda foi quando eu fui passar o dia fazendo uma caminhada da praia do Paiva até Gaibú (são mais ou menos 16 Km). Parei antes em Barra-de-Jangada pra almoçar e antes de começar a comer pedi uma cerveja, eu senti como se estivesse quebrando um pacto, com Deus, com Lúcia e com a minha sanidade. Tomei 5 cervejas neste dia. Não acho que foi muito, foram bem espaçadas e a caminhada ajudou a colocar a maior parte do álcool pra fora. Engraçado na primeira vez não tive o sentimento de quebrar um pacto, e Lú não desconfiou nem ficou sabendo de nada. Acho que foram os anjos.
                   30/12/98 – 23 h. Estou novamente elétrico. Já tomei 100 mg de Melleril faz 2 horas, não fez efeito ainda, vou esperar mais 15 minutos se a voltagem não baixar tomo mais 50.
                   05/01/99 – 00:27 hs. Passou. Dormi no dia 30. Bebi novamente hoje, porra!!!   
                   13/01/99 – 23:46 hs. Hoje tomei a decisão mais difícil da minha vida. Vou pra Lençóis. Foi uma decisão que eu tomei depois de orar a Deus pedindo que Ele me mostrasse qual era a vontade dele; que Ele me desse paz no coração se fosse da vontade Dele que eu fosse, se não fosse que eu não sentisse paz. Eu tive que aniquilar completamente a minha vontade para poder obter a resposta à minha oração. Porque a minha vontade era de ir, mas eu queria ir com Lúcia e os meninos. Eu tive que abrir mão da vontade de ir, e me sujeitar a ficar se fosse da vontade dele. Momentos depois que eu me reduzi a nada, eu senti a decisão sendo tomada no sentido de ir. E veio paz no meu coração, que até então eu não sentia quando pensava em ir pra lá. Veio paz, graças a Deus. Veio paz.
                   16/01/99 – Hoje eu me separei de Lú. Ela não aceitou a idéia de ir morar comigo em Lençóis.
                   27/01/99 – 23 h – Estou escutando “Oxygene” de Jean Michel Jarre. Conversei com Lúcia ainda há pouco. A gente está se separando numa boa. Acho que ela vai ser a minha melhor amiga. Espero também ser o melhor amigo dela. Estou um pouco agitado. Há uma coisa a ser dita: Esse estado de excitação é extremamente prazeroso, porém destrutivo, e eu não quero mais saber de furacões na minha vida.
                   23/02/99 – Tô sofrendo muito com essa separação.
                   27/02/99 – Hoje tomei a decisão de não mais ver Lúcia. Estava sendo um tormento toda a vez que a via. Eu sentia vontade de beijá-la, abraçá-la e me deparava com uma pedra de gelo.
                   03/03/99 – Hoje eu não tô com vontade de escrever. Já falei de tantas coisas. O que mais há pra ser dito? Será que esta vida tem um sentido? Eu queria realmente que ela fizesse um sentido pra mim. Infelizmente não vejo. Racionalmente falando eu sei que o sentido está em propagar o reino de Deus aqui na Terra, mas eu quero ter isso como uma chama queimando dentro do meu coração, quero ter isso como vida dentro de mim, e não simplesmente como palavras.
                   19/04/99 – Olhando da janela que tantas vezes me trouxe o infinito nas asas de um pássaro. E é dessas cinzas, de tudo de ruim de tudo de bom do esterco da lama da flor do vôo impensável, do instante inatingível, da busca da busca que me queima e me consome. No meio de tantos antagonismos eu procuro me encontrar.
                   11/06/99 – Quem sou eu? Quem sou eu? Essa questão da minha identidade me angustia. Eu sei que não sou Jesus, mas vez por outra me vem uns lampejos como se eu fosse. Eu ouso dizer como Ginsberg: “América, eu não agüento mais a minha própria mente!”.
                   13/06/99 – Hoje conheci Ramayana, fã da minha poesia, vinte aninhos somente, uma gracinha.
                   10/07/99 – Ontem conheci Milena, simplesmente uma deusa. Linda. Fiquei feliz por existir e poder contemplar sua beleza.
                   27/08/99 – Da primeira vez que eu fiquei sem falar com Lúcia consegui passar três meses. Agora quero ver se deixo de uma vez por todas. É muito sofrimento pra meu gosto, chega! Eu não consigo ter somente amizade por ela.
                   28/08/99 – De quem eram aqueles olhos ainda há pouco no espelho, que ser era aquele que me olhava? Com certeza não era eu.
                   14/09/99 – 2 h 36 min – Estou em Lençóis. Cheguei no dia l0/09 às 23 h após uma viagem cansativa. É muito lindo isso aqui, é difícil descrever em palavras a paz, a mansidão, o esplendor e a magia que este lugar transmite. Estou muito feliz por haver voltado. Não vou passar muito tempo por aqui, como havia pensado, talvez fique uns 15 a 20 dias, depois retornarei a Recife para retomar a faculdade.
                   15/09/99 – 4 h 41 min – Ontem estive no Poço Encantado e Poço Azul, o Poço Encantado é lindo, mas o Poço Azul foi a mais grata experiência de comunhão com a natureza que eu já tive na minha vida. É uma gruta com uma lagoa que a gente pode mergulhar, e vamos com um guia com uma lanterna no capacete até uma parte escura no fundo da caverna, e quando chegamos lá ele desliga a lanterna e voltamos de lá com a água a uma profundidade de 18 m., puramente azul com uma exuberância de iridescências, indo da escuridão para a luz, é como se estivéssemos nascendo de novo, simplesmente indescritível.
                   16/09/99 – 22 h 44 min – Estou no Capão. Viemos de Lençóis até aqui, foram 24 km. andando com uma mochila de uns 12 Kg. nas costas, foi o início de nossa marcha de 5 dias (74 Km.), onde iremos conhecer a cachoeira da fumaça por cima no 2o dia, no 3o os Gerais do Vieira, no 4o o vale do Pati e no 5o chegaremos a Andaraí. Passamos hoje pelo “Morrão”, o ponto mais alto da chapada, foi simplesmente hipnotizante, não consegui parar de olhar pra ele, sua visão nos acompanhou durante boa parte da viagem.
                   20/09/99 – 1 h 07 min – Estou no vale do Pati, numa casa abandonada que eles chamam “prefeitura”. Os moradores daqui conservam bem varrida a casa, eles vendem uma aguardente artesanal. Daqui dá pra ver o castelo de Greysgoth, é uma formação igualzinha a um castelo. A noite está nublada, é sempre assim aqui em Lençóis. Gostaria de ver uma noite estrelada como eu vi na cachoeira de Topázio lá em Brasília. Mas tá valendo! O carro não chega aqui, e as paisagens são simplesmente deslumbrantes.
                   Ontem estávamos nos Gerais do Vieira, uma planície imensa, no final da tarde subimos num monte para vermos o pôr-do-sol, foi incrível. Aquele pasto imenso sem gado e o sol dourando o capim, recitei o Salmo 23.
                   23/09/99 – Tô de volta a Recife.
                   27/09/99 – Fui pra Lençóis com o dinheiro da venda de uma Towner 95 que eu comprei pra fazer passeios ecológicos, foi a melhor coisa que eu fiz, vender aquela desgraça, só vivia quebrando... Bom, com o dinheiro que sobrou após a viagem encomendei uma carrocinha de cachorro-quente. Deve ficar pronta dentro de 20 dias.
                   14/10/99 – Agora é que a carrocinha ficou pronta, amanhã eu sairei com ela.
                   15/10/99 – É barra sair empurrando uma carroça grande pelo meio da rua, ter que ficar atento aos fiscais da prefeitura, num é em todo lugar que você pode parar, o lugar que não pode é o que vende mais, quase que os fiscais levam a minha carrocinha hoje, só não levaram porque eu fiz uma choradeira danada.
                   18/10/99 – Ontem a carrocinha quebrou o suporte da roda, Dody foi quem me socorreu, depois tomei uma birita com ele.
                   Por falar em Dody, me lembrei agora dos acampamentos que a gente fazia em Gaibú, em 83, depois que eu passei no concurso do Banco do Brasil. Era muita loucura, nessa época eu tinha um Gurgel, eu já andava com a tenda no carro. Eu saia com Lú geralmente pra Olinda, Querubim Bar, Relicário, Quintal, era uma turneé etílica. Bom resumindo, a gente (eu e Lú), às vezes 3, 4 horas da madrugada decidia ir pra Gaibú. Quando a gente tava armando a barraca, quem é que encontrávamos? Dody e Telma. Aí nessa época tinha uma história de papeiro, que era uma tapa violenta no pescoço, eu ia por trás na surdina e dava um papeiro em Dody, ele tomava o maior susto, aí a gente abria um vinho e ficávamos bebendo, olhando a fogueira e eu tocando flauta até o dia nascer. Era muito bom aquilo.        
                   18/12/99 – 23:13 hs. – Bilhões de anos foram necessários desde o momento do Big-Bang até agora, eu na frente da tela de um computador viajando no seu protetor de tela como se estivesse percorrendo em grande velocidade as galáxias. Até onde irá a evolução da tecnologia? Será que existirá um limite?
                   15/01/2000 – Foi uma apelação sair com uma carrocinha de cachorro-quente.
                   10/02/2000 – Às vezes eu não me reconheço quando olho para o espelho. Espero ver aquele mesmo cara de cabelos compridos da adolescência, é essa a imagem que ficou dentro de mim...
                   Falei isso pra Ernesto no final de semana passada, ele ligou pra mim no meio da semana e disse que quando se olhou no espelho saiu correndo e se escondeu embaixo do lençol.
                   24/06/2000 – Ah, eu aqui novamente diante de ti, meu confidente... Eu quero agora a lucidez, a completa lucidez, a bebida já atingiu o seu limite, não mais o álcool, ele já me trouxe o que eu queria buscar dele, agora eu quero a lucidez. Eu digo o que eu queria buscar dele nesse exato momento, em que já tomei duas garrafas de cervejas e quase uma garrafa de vinho, esse é meu limite e eu não quero ultrapassar...Não quero perder a consciência...Lúcia voltou pra mim, e daqui a mais alguns instantes vou me encontrar com ela no motel.
                   03/02/01 – Eu posso viver mais 100 anos, mas nunca vou perder a perplexidade diante da vida.
                   25/03/01 – Dire Straits – Sultans of Swing – ao vivo. Sinto-me VIVO!!!! Consegui um emprego na Emlurb, vou trabalhar na área administrativa, o salário não é muito grande, mas é melhor do que estar parado. Trabalhei com Ernesto na empresa de publicidade dele de Agosto do ano passado até Fevereiro desse ano, atualmente estávamos sem nenhuma campanha em andamento. Estou estudando para o concurso da Polícia Rodoviária Federal. Voltei pra Igreja, já estou há um mês sem beber. Às vezes sinto falta da bebida, principalmente de um bom vinho.
                   28/04/01 – Voltei a beber, desbragadamente...Vou ver se consigo dar um tempo de um mês, pelo menos. Falei com Mamãe, e ela concordou, para eu quando voltar a beber ficar tomando uma cervejinha ou um vinhozinho aqui em casa mesmo, aí eu acho que vai ser mais fácil controlar...O que me incita a beber mais são as conversas com os amigos...
                   Carne 6 x Espírito 2 – este é o placar atual no meu ser...
                   13/05/01 – Domingo à tarde. Tô legal! Estudei quase o fim de semana todo, agora vou relaxar...Já tomei 4 latinhas de cerveja, tô na quinta, escutando Zé Ramalho, Vida de Gado, projetos, projetos, projetos...Vamos botar em prática!
                   Lembrei-me agora de um fato ocorrido em 1979, estávamos eu, Tatá e Ernesto, tinha uma pedra em Calhetas em forma de bola, e o mar a cercava, eu consegui atravessar até a pedra e fiquei no mar fortíssimo embalado ao sabor das ondas em completa harmonia viajando de cogumelo. Tatá resolveu pular também, só que quando ele quis sair do mar se ralou todinho, coitado, não pegou o embalo das ondas...
                   De outra feita a gente foi andando do Cabo até Gaibú, 24 Km a pé, Eu, Ernesto, Arraso, Hermano e Bolinha. De noite. No meio da caminhada a gente viu umas luzes estranhas no céu, todo mundo doido de Optalidom. Ernesto quis chamar os discos voadores para um contato imediato de 3o grau aí eu disse pra ele: - Num chame não, num chame não, porque se eles vierem eu jogo uma pedra neles! Eu tava mais doido ainda que todo mundo...
                   E Claudinho, um hippie doido lá de Gaibú, quando eu tava eufórico em 1993, ele passava pelas pessoas em pleno Outubro e desejava um Feliz Natal! Completamente doido!
                   Fiz amor com uma flor! Doido de cogumelo, num Setembro belíssimo, nas trilhas de Cabo de Santo Agostinho, eu encontrei uma flor em forma de vagina, roxa, orvalhada, a coisa mais linda do mundo, parei no caminho e fiquei contemplando-a, a minha energia foi passando pra ela e a energia dela foi passando pra mim, foi um gozo cósmico!
                   1979. Como descrever aquela época? Não tem palavras, não tem palavras, a magia estava no ar, as descobertas da adolescência, a natureza em flor desabrochando em comunhão com a nossa descoberta do mundo...A magia, a magia...
                   Gaibú. Bar do Pingüim. Sábado à noite. Cheguei com 4 cogumelos enormes copo de leite, da vaca Zebú, coloquei um num prato fundo, derramei vinho de jurubeba, e quando estava pra dar uma dentada nele surgiu um maluco e disse: Deixa eu dar uma mordida nesse pão! Deu! Comi o restante. Sai viajando por Gaibú à noite. O som das ondas parecia uma viagem de lança perfume, o mesmo efeito, tchum, tchum, tchum... E parecia que eu estava viajando no tempo, aquelas ondas cósmicas ecoando e eu andando no tempo naquele túnel mágico de Gaibú.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Ácido na corrente elétrica - Parte III


 Imagem: Flickr

                   Jesus sempre foi o meu ídolo, teve uma vez num feriado de 07 de Setembro de 79 que fomos passar lá em Gaibú, eu e Tatá fomos os primeiros a chegar, passamos antes no pasto e pegamos um saco de cogumelo; então eu peguei 12 e coloquei em cima de uma toalha e disse: Eis os meus doze discípulos, agora vou devorá-los! Quando eu estava comendo chegou um pescador baixinho e pediu um pra experimentar, eu dei. Dois dias depois estávamos no bar do Pingüim comendo cogumelo novamente e esse pescador tava lá, aí Pingüim perguntou: Pra que é que vocês comem isso? Eu disse que era bom para o fígado, aí o pescador falou: Pro fígado coisa nenhuma, isso aí é pra uma coisa bem diferente!
                   Nessa viagem em que eu comi os doze cogumelos fiquei quase 72 horas viajando direto, eu não sei o que estava buscando, talvez conhecer qual era o meu limite, ou qual era o limite da minha loucura, ou talvez estivesse buscando a morte; eu sei que comecei a viagem na quarta de 2 horas da tarde e vim terminar na sexta de 10 horas da noite, foram 36 cogumelos que eu comi no decorrer da viagem, é bom que se diga, com apenas 04 você viaja 08 horas. Assim que bateu o tapa eu tava subindo a pedra, tava tocando “Avohai” de Zé Ramalho, não sei como não cai. Quando cheguei lá em cima não agüentei ficar em pé, deitei na pedra, quando olhei pra cima o céu tinha milhares de cogumelos feitos de papel celofane cor de rosa. Os cogumelos faziam Vum-Vum de um lado para o outro no céu. Veio uma energia lá de cima e atravessou meu plexo solar e foi pra terra, depois veio da terra atravessou novamente meu plexo solar e foi para o céu, foi uma espécie de orgasmo celestial.

                   Se tu não me deixaste morrer, Senhor, quando eu fui à Lençóis, em 1993, à 180 Km/h, e depois em todas as loucuras que eu fiz em Gaibú, cantando os pneus do Kadett à beira de precipícios; é porque tens alguma obra preparada para mim com certeza, meu Deus! Eu quero apenas dizer como São Francisco de Assis: “Fazei de mim um instrumento de tua paz!”.
                   Consegui um trabalho na prefeitura de Jaboatão, na secretaria de planejamento. Devo começar no início de junho. Sim, Dra. Valéria receitou Tofranil para minha depressão, numa dosagem muito pequena: 1 comprimido de 10 mg. por dia. Não está surtindo muito efeito.
                   Hoje é quarta-feira, 21/05/97, 1:38 h da madrugada, estou sem sono. Acabei de terminar uma proposta para a criação no Centro Eulâmpio Cordeiro, onde eu me trato, de um grupo de Dependentes Anônimos. Espero que seja aceita, a proposta está muito boa.
                   Devo esta semana começar a participar de um grupo de teatro lá na minha igreja. Parei de tomar o Tofranil, estava começando a ficar com insônia.
                   A vontade de me suicidar passou, graças a Deus. A vida coloca obstáculos na nossa frente, em que temos que ter paciência e perseverança para vencê-los. A minha vida sofreu uma reviravolta muito grande nos últimos 4 anos. Eu morava num apartamento com minha esposa e meus filhos, era o sócio-gerente de uma loja de ferragens. De repente o movimento na loja começou a cair, vendi a minha parte na sociedade e fui tentar montar um negócio em Maceió, foi quando entrei em crise e fui internado pela 4a vez, aí Lúcia não quis ir mais pra Maceió. Resumindo: em 4 anos saí de uma situação estável para uma altamente instável, estou morando novamente na casa da minha mãe, Lúcia e os meninos estão na casa da mãe dela; a gente não se separou, mas devido ao fator financeiro estamos em casas separadas.
                   O pior de tudo é vencer a desarrumação mental que fica depois de um furacão desses. A gente fica pensando que é incompetente, que não vai conseguir nada novamente, é um trabalho de Hércules vencer o nosso próprio ego ferido. Hoje eu sei que sou competente e que tenho valor, o salário da prefeitura de Jaboatão é pequeno; mas pra quem está há um ano e quatro meses sem trabalhar, qualquer coisa é válida. E eu estou estudando para o concurso do T.T.N.(Técnico do Tesouro Nacional), cujo salário é muito bom.
                   Gaibú, Gaibú...Como era linda aquela praia!
                   Um mar esmeralda-cristalino, com ondas perfeitas para o surf, umas poucas casas de veraneio, era em essência um vilarejo de pescadores, a areia branca intocada antes da aurora, aquelas ondas enormes rebentando; muitas vezes os golfinhos vinham até perto da arrebentação. Era um paraíso...
                   Quando íamos para lá em 79, levávamos apenas um cobertor, comida, e alguma roupa, dormíamos nos terraços... Deixávamos tudo lá, e saíamos para andar e só voltávamos à noite e ninguém mexia nas nossas coisas. Sempre que eu ia, levava a flauta doce e de noite tirava um som muito suave em cima da pedra. Gaibú na língua dos morubixabas quer dizer “pedra grande”.
                   Foi uma época inesquecível!...
                   Andávamos pelas ruas de Gaibú, com flores de Jasmim no cabelo, éramos de uma pureza pueril. O bar do pingüim, onde a rapaziada se reunia para fazer o rango. Aquele cheiro de terra molhada e maresia no ar...Os incríveis caminhos em que eu levava a rapaziada a andar, incrível eu quero dizer no sentido de inacreditável mesmo, como é que uma pessoa andava por um caminho que só tinha tiririca (um mato que corta), na realidade não existia nem caminho; andávamos no meio do mato mesmo, na altura do peito às vezes; eu só via o pessoal chiando: Carlinhos, que danado de caminho é esse? A essa altura eles já estavam longe e não podiam ou não queriam mais voltar, tinham também a curiosidade de saber aonde aquilo ia dar. Mas nessas andanças descobri lugares maravilhosos como a bica da borboleta azul, um corregozinho de águas cristalinas, cheio de piscinas naturais, que passava no meio da mata; e quando ficávamos parados em silêncio, após 5 minutos vinha uma enorme borboleta azul e ficava voando entre a gente.
                   Acabou, hoje Gaibú tá o maior crowd; aquela pureza que nós tínhamos também se perdeu, com a idade adulta, com as sacanagens do mundo; e até hoje eu ando em busca dessa pureza, de uma vida mais bela. Hei de um dia resgatar isso tudo, numa nova situação, com outros elementos, mas resgatarei.
                   Anteontem eu bebi novamente. Não fiquei embriagado, de jeito nenhum, mas bebi. Foi com Alberto, um vinho maravilhoso, o Boticceli, acompanhado de um sashimi de salmão que estava uma delícia. Fazia quatro meses que eu não bebia. A consciência não me acusou de nada, não acho que pequei. Ficamos conversando das 23 h até às 4 h da manhã. Foi uma conversa agradabilíssima, eu gosto de Alberto. Sei que corri um grande risco, se tivesse cocaína lá, eu teria cheirado, com certeza. E aí a história teria sido bem diferente. Eu não sei mais como lidar com a minha natureza. É dureza nos afastarmos das pessoas que amamos. Mas tem que ser, eu não posso me arriscar a ter outra crise.
                   Estou ouvindo “Caverna Mágica” de Andreas Vollenweider, é um som muito relaxante; faz-me pensar nas incríveis oportunidades que a vida nos oferece. A vida sempre procura uma maneira de sair vencedora. Temos que permear a nossa vida com muito amor. Agora eu encontrei um sentido pra minha vida: propagar tudo o que Jesus nos ensinou aqui na terra. O reino dos céus está dentro de cada um de nós. Eu tô sentindo uma alegria muito grande dentro de mim. Oh, Pai, eu quero poder ser útil a Ti! Ajuda-me nesta caminhada! Ajuda-me! Estou dizendo isto, mas eu sei o quanto Tu tens me ajudado; sem Ti eu não conseguiria nada! Nada!
                   O budismo fala que isto aqui é o grande reino Maya, reino das ilusões, e às vezes eu tenho uma percepção muito forte disto. Às vezes eu procuro uma âncora para jogar, é como se eu estivesse navegando nesta dimensão e procurasse alguma coisa real em que pudesse me agarrar e não encontro; faço os atos normais do cotidiano, mas é como se eu estivesse fazendo um grande teatro, sabendo que a peça principal não é esta aqui. 
                   Eu acho que o que estava me fazendo mal era a falta de exercício, hoje eu andei 11 km., estou me sentindo bem melhor.
                   O mundo espiritual e o mundo material, que ligações estranhas existem entre os dois. Tudo acontece primeiro no mundo espiritual e depois então se concretiza no material. Que batalhas são travadas no mundo espiritual! Que lutas ferrenhas! E que armas dispomos para lutar? Oração, andar segundo os caminhos de Deus, e a principal de todas as armas: Jesus... Jesus...Ele já pagou o preço pela nossa redenção. Quer dizer, quando aceitamos Jesus como nosso salvador, acontece a salvação do espírito, a salvação do corpo vai acontecer quando ressuscitarmos com Cristo, então ganharemos um novo corpo, um corpo celestial; agora, a salvação da alma se processa no decorrer de toda a nossa vida, com a contraposição da carne ao espírito e com todas as situações que a vida nos depara. É por isso que na Bíblia fala: “Aquele que perseverar até o fim, esse será salvo!”
                   É claro, tudo o que eu falei é uma questão de fé! Tudo se situa no terreno puramente subjetivo. Eu particularmente creio, respeito contudo quem não crê. Mas como explicar determinadas coisas, o início do universo, o Big Bang, a explosão inicial de onde da energia foi gerada toda a matéria do cosmo, que os cientistas calculam ter acontecido há 16 bilhões e 500 milhões de anos. Como explicar? A própria natureza, com a sua variedade incrível de formas, cores, cheiros, paladares e sons. A incrível harmonia e interdependência de todos os seres vivos do planeta. Como explicar? Como explicar um sistema tão perfeito?...
                   Sei que estou vivendo um momento muito difícil na minha vida, mas eu não vou abandonar o Senhor, é Ele quem me tem dado forças para vencer esta provação. O Senhor, a quem eu sirvo, me dará a vitória!
                   Pai, eu te amo! Eu te amo!
                   Pai...Ajuda-Me, me ajuda nesta caminhada, me ajuda a trilhar a senda!
                   Pela manhã te buscarei /   De madrugada / Eu me acercarei
                   A Ti...
                   Minha alma te anela
                   E te deseja
                   Para ver tua glória
                   E o teu poder
                   Meu socorro és Tu Senhor!
                   E na sombra de tuas asas
                   eu me achegarei,
                   Minha alma está
                   Apegada a Ti,
                   Porque tua destra
                   Tem-me sustentado! “Temprano yo te buscare” – Marcos Witt
                   Na realidade não tem nada de incrível acontecendo na minha vida. O que eu estou vivendo na verdade é um marasmo muito grande. Não tenho nenhum curso superior em que eu possa me capacitar para o mercado de trabalho, que está cada vez mais exigente; o que aconteceu foi eu ficar distribuindo currículo adoidado por aí em vão. O emprego lá na prefeitura de Jaboatão tá demorando a sair, já faz três meses em que eu fui lá pela primeira vez e nada de sair a portaria da nomeação. Talvez a única porta que eu vejo na minha frente seja esse dinheiro da Sta. Rita. Eu acho que vou comprar um Buggy com ele, e fazer passeios turísticos no hotel Caesar Park lá em Suape.
                   Não vou ficar parado! Vou lutar contra essa maré negra que se abateu na minha vida; hei de encontrar uma saída! Vou continuar estudando para o concurso do T.T.N., agora disponho de bastante tempo para me preparar, pois ele só vai ser realizado o ano que vem. É que às vezes me dá uma angústia por estar há tanto tempo sem trabalhar, 1 ano e 5 meses já.
                   Bom, mas vamos em frente, a vida não é só feita de momentos bons; temos que ter estômago pra agüentar as lapadas que ela também dá.
                   16/11/97 – Hoje fiz 15 anos de vida em comum com Lúcia. Eu não gosto muito de comemorar a nossa data de casamento, pra mim foi uma mera formalidade, o importante pra mim foi o dia em que a gente começou a namorar. Desde então a gente não se largou mais. Houve brigas nesses 15 anos, mas qual o casal que nunca brigou? Eu tenho a certeza que as dificuldades serviram para amadurecer o nosso relacionamento, e na superação delas, demonstrar o quanto nos amamos.
                   Não sei mais se abra algum negócio com o dinheiro da Sta. Rita, tem tanta loja fechando na cidade, neste ano de 1997, que eu acho mais prudente comprar algum repasse de apartamento; ou então guardar este dinheiro e esperar pela venda do apartamento de mamãe em Piedade, em que ela vai me dar uma parte para eu comprar um apartamento para mim e também um dinheiro que a loja ficou me devendo. Aí eu acho que juntando tudo mais o dinheiro do terreno de Barra de Jangada dá pra abrir uma pousada lá em Lençóis! Se Deus quiser!
                   Abriu-se mais uma página inteirinha pra eu escrever, a tecnologia é uma coisa fantástica, como a máquina de escrever virou um objeto de museu em tão pouco tempo! Pena que uma parcela considerável da população não tem acesso nem à comida, quanto mais à tecnologia... É muito dura a realidade em que vivemos. O que nós podemos fazer para mudá-la? Pergunto-me constantemente, e o sentimento que me vem quando faço esta pergunta é de impotência diante do poder econômico.
                   Bem, façamos o que está ao nosso alcance: um prato de comida, uma roupa velha, uma esmola, isto nós não podemos negar. Mas é pouco, muito pouco, eu quero fazer mais por essa gente, não sei ainda o quê, também agora desempregado fica difícil, mas deixa as coisas clarearem mais, que eu vou ver de que forma eu posso ajudar mais. Eu tava pensando em fazer como uma colega de trabalho de Duda, um primo meu, um sopão uma vez por semana e sair distribuindo na cidade. Junto com a sopa, a palavra de Deus. O pão para o corpo e o pão da vida, Jesus, para o espírito.
                   Pequenos atos, tomando corpo na sociedade irão gerar uma mudança palpável. Foi assim na campanha de solidariedade de Betinho. Não podemos deixar essa peteca cair.
                   Pai, eu não sei a forma que tu queres me usar, tu és insondável, eu me entrego completamente a ti, usa-me da forma que quiseres, essa é a minha oração.
                   10/01/98 – Começamos a distribuir o sopão pela primeira vez ontem. Foi uma experiência muito gratificante. Temos que nos engajar agora numa verdadeira batalha espiritual, através da oração, para ganharmos vidas para Cristo. É este o nosso objetivo maior: ganhar vidas para Cristo. É claro que o alimento é importante, mas não é o principal. O principal é a alma. No evangelho de Mateus Jesus disse: “Buscai em primeiro lugar o reino de Deus, e todas as outras coisas vos serão dadas por acréscimo”.
                   Avohai! Avohai! Eu acho que essa música vai ficar gravada pra sempre no meu cerebelo, Chão de Giz também...
                   Meu filho Biel, sentado no birô me olhando escrever este livro, meu filho Biel, meu filho, meu filho, só quem é Pai é que conhece a força e o amor que tem estas duas palavras: meu filho, meu filho...
                   21/02/98 – Dia 26 próximo vai fazer 5 meses que eu bebi pela última vez, de lá pra cá não tenho sentido mais a mínima vontade nem de beber nem de cheirar, fui completamente liberto, graças a Deus. Como é difícil o caminho com Jesus, eu às vezes penso que não vou conseguir. Eu estou tendo muita dificuldade para me santificar, não desejar as mulheres que passam pela rua, ou seja: não adulterar em pensamento, puxa vida, como essa área está sendo difícil para mim. Eu não vou desistir, mesmo com todas as dificuldades vou perseverar. Assim como eu tive vitória nessa área da bebida e da coca, tenho certeza de que Deus vai me ajudar nessa outra área também.
                   Sei que posso contar com a ajuda dos irmãos, compartilhar com eles as minhas dificuldades, dessa forma o caminho fica mais fácil de ser trilhado. Tem um ponto importante nisso tudo: Nós temos que fazer a nossa parte. Tem um outro ponto mais importante ainda que esse: Não conseguiremos sem a ajuda de Jesus!
                   11/04/98 – Desde Novembro do ano passado que Lúcia e os meninos estão morando comigo novamente, aqui na casa de mamãe. Não é nunca como a gente estar no nosso cantinho, mas está sendo bem melhor que antes.
                   02/05/98 – Passei na primeira fase do concurso da Assembléia Legislativa, uma batalha foi ganha, mas não a guerra ainda, falta agora a prova de redação. Vou lutar para conseguir passar. Não no mesmo ritmo em que eu vinha estudando, mais de 10 h por dia. Houve dia em que eu estudei 13 horas e meia. Isso esgota qualquer um. Errei 6 questões na prova, que eu sabia, simplesmente por cansaço mental. Bom, mas isso não vem ao caso agora, o que importa é que eu passei nessa fase.
                   07/02/98 – Hoje fomos à granja. Foi um dia ótimo, muito relaxante, apesar de termos andado bastante por lá, pelo meio da mata, subimos montanhas, tomamos banho de rio, foi muito bom. E à noite ficamos ainda um tempo por lá admirando a lua e as estrelas. Era justamente o que eu estava precisando para recuperar as energias. Tinha uma orquídea florida. Até conjeturamos sobre a possibilidade de comprarmos mais espécies de épocas de floração diferentes, para que tivéssemos em cada mês do ano pelo menos algumas orquídeas com flores.
        Sempre estamos em busca de mais. Eu quero dizer como o salmista Davi: “Aquieta-te minha alma, aquieta-te!”, mas como é difícil nós aquietarmos a nossa alma! É como tentar segurar o vento com as mãos. Temos que tentar. Tentar até conseguir. É o exercício da perseverança. “O reino de Deus é tomado por esforço!”.
                               05/07/98 – Ah! Computador você é meu confidente, é a você que eu falo nas minhas madrugadas insones, e a música que de você emana acalma a minha alma. Que tempo é esse que nós estamos vivendo, que tempo é esse meu Deus? Mulheres e crianças sendo estupradas dentro do ônibus. Aonde nós iremos chegar? Eu acho que o tempo da volta de Jesus está muito próximo, todas as profecias estão se cumprindo: a volta de Israel como nação, a reconstrução do templo de Salomão em Jerusalém e muitos outros sinais que estão se confirmando. E com certeza eu não sou Jesus. Graças a Deus passou essa piração, mas eu sinto que a volta do Mestre está muito próxima. O tempo está conturbado demais.
                   12/07/98. Hoje Rosivaldo, o Pastor da nossa igreja, fez uma pregação fantástica sobre a importância de sermos apaixonados pelas coisas do reino de Deus, mergulharmos de cabeça na obra, termos paixão ao fazermos o evangelismo; não dá pra traduzir em poucas palavras um sermão de quase 2 horas; mas foi muito bom.
                   A cada dia que passa eu gosto mais de conhecer pessoas, fazer novas amizades, trocar idéias. Agora apesar das amizades, de eu não me sentir sozinho, um pensamento que me veio de uma forma muito clara quando eu tinha apenas treze anos: é que nós somos infinitamente sós. Eu digo isso no sentido de que é muito difícil, eu diria quase impossível, uma pessoa perceber completamente a outra em sua essência. O máximo que conseguimos é lançar pontes em direção ao próximo, pontes...
                   01/09/98 – Sim, me esqueci de dizer: Não passei na segunda fase do concurso da Assembléia, levei ponto de corte por causa de quatro décimos. Já estou na 3a apostila do concurso do T.T.N.(são 9), mas eu acho que daqui para a prova vai dar pra ver o programa todo, se Deus quiser.
                   14/09/98 – Hoje o Senhor abriu uma porta de emprego pra mim, vou trabalhar com vendas de aparelhos de eletrocardiograma, tecnologia russa-cubana, ele já emite o eletrocardiograma com o laudo dizendo o que é que a pessoa tem. Vou passar por uma fase de treinamento de 15 dias, depois eu saio em campo para vender.
                   17/09/98 – Hoje comecei a ensinar meu filho Lucas, de 5 anos, a jogar xadrez.
                   Imagens...Imagens...Há cerca de uns três anos, tudo o que vinha à minha mente eram imagens, uma atrás da outra, imagens belas do planeta em que vivemos. Eu passava pelas paisagens e as imagens ficavam na memória. Uma mata com vários Ipês roxos e amarelos floridos, um pasto verdejante dourado pelo pôr-do-sol, toda a exuberância de um Flamboyant florido, o mar com a sua imensidão...A minha mente era um receptor que processava todas essas imagens numa velocidade espantosa; parecia que eu estava aqui só para saboreá-las. Elas tomavam conta da minha mente e me absorviam por completo, apesar de tudo se mostrar muito irreal, era extremamente belo.

Dá-me a tua mão - Clarice Lispector


Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.

De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Minutos de Sabedoria - Carlos Torres Pastorino


Você, que é pai, é a criatura mais feliz sobre
a face da terra.
Levante os braços aos céus e agradeça a Deus
a misericórdia que lhe concedeu.
Mas lembre-se de que não basta dar aos filhos
o sustento e a instrução. Algo existe mais
importante que tudo isso: é o exemplo.
Dê a seus filhos o exemplo do trabalho,
da honestidade, da dignidade
em toda a sua vida.

Pg. 172

Ácido na corrente elétrica - Parte II


24 dias na 7ª. Região do Inferno, ou também chamada “Casa de Saúde São José”. Mas estou de volta, mais uma vez sobrevivi. Bom, eu não quero falar muito como é que foi meu internamento, foi o 7o, e só dois deles foram bons, o do RAID, aqui, e BAIRRAL, em São Paulo. Houve muitas fugas.

                   Bom, mas tem uma coisa interessante neste último internamento, assim que cheguei eu era Jesus, e arranjei logo de cara 5 discípulos: Mateus, Pedro, Paulo, Buda e Alan Kardec; aí eu chegava pra Pedro e dizia: Pedro, tu és pedra e sobre ti eu edificarei a minha igreja, e ele respondia: Certo Jesus, certo! Era engraçado Pedro, ele chegava pra mim e dizia: Eu sei que você é Jesus, posso ver pelo brilho dos seus olhos que você é Jesus!
                   Voltei ainda há pouco da praia, cheguei lá o sol estava nascendo, acordei cedo hoje, eram 4h, tenho andado um pouco preocupado com a minha vida, essa coisa de estar desempregado, sem uma fonte de renda, tem mexido com a minha cabeça. Mas então quando o sol estava nascendo, eu me lembrei do versículo de Isaías 41:10 : “Não temas, porque eu sou contigo, não te assombres, porque eu sou o teu Deus, eu te fortaleço e te ajudo, e te sustento com a minha destra fiel”. Aí me deu uma Paz, sabe, era como se o próprio Deus estivesse ali dizendo estas palavras, o Criador daquilo tudo. Não que agora eu vá ficar de braços cruzados esperando que o dinheiro caia do céu. Eu vou me movimentar, é claro, mas despreocupado, sabendo que o Pai está ao meu lado!
                   Bem, estou fazendo uns cartões postais de poesias minhas, devem ficar prontos dentro de uns dez dias, aí quando eu saí da gráfica ontem, saí meio eufórico, com vontade de beber novamente, de comemorar, então eu liguei pra Dra. Valéria e ela aumentou a dosagem do melleril para 100 mg por dia; espero que dê para controlar, eu não quero entrar em crise novamente.
                   Ontem foi o quarto dia com essa dosagem, não foi suficiente para controlar minha compulsão ao álcool, saí com Miró para Gaibú e bebi até vomitar; quase que a gente cai num precipício por conta da minha bebedeira. Cheguei em casa era umas 23h 30min, já refeito, tomei o remédio e fui dormir.

                   Eu ainda não falei, tenho PMD, psicose-maníaco-depressiva, ou também conhecida como distúrbio bipolar. Saiu há pouco tempo uma reportagem na Veja sobre um cara que também tem PMD que me ajudou bastante. Eu antes tinha certa resistência em tomar os remédios, eu me sentia bem e achava que não precisava tomá-los, mas há pouco tempo descobri que me sentia bem justamente porque estava tomando-os.
                   Os 100 mg não foram suficientes, tive que aumentar a dosagem para 150 mg, é o equivalente a um murro de MICK TISON, é pau na moleira.
                          Bom, mas vamos deixar esse papo de doença de lado, que eu não gosto muito de falar sobre isso. Apesar de não me enquadrar embaixo de nenhum rótulo, eu sinto como se tivesse uma diabete, tenho que tomar remédios até o fim da minha vida. Mas não me sinto constrangido por causa disso, tudo tem seu preço. O fato de Deus ter me dado esse dom de escrever poesias, ter me dado essa sensibilidade exacerbada, tem o seu preço em contrapartida; mas eu pago esse preço satisfeito. Não que eu seja masoquista, mas é porque acho que vale a pena pagá-lo. E além do mais não é nenhum câncer, nenhuma AIDS, muito pelo contrário, é plenamente controlável através dos medicamentos que dispomos hoje em dia.
                   São exatamente 1:22 h da madrugada e ainda não consegui dormir. É demais pra mim, já tomei outro melleril e nada de chegar o sono. 200 mg de melleril!!! Não pensei que fosse chegar a tanto! Mas vou subir pra cama e relaxar que o sono chegará com certeza!
                   Agora são exatamente 5:56 h, consegui dormir às 2:47 h, dormi, portanto pouco mais de 3 horas. É muito pouco, mas pelo menos dormi.  Pior foi anteontem, só consegui dormir 1 hora.
                   Hoje já é o terceiro dia que eu tomo 200 mg de melleril, graças a Deus eu melhorei. Graças a Deus eu dormi bem neste último dia.
                   Tenho vendido bem meu livro de poesias, feito aqui no computador; é o que tem me valido nestes dias! E o pessoal tem gostado!
                   Já faz 2 meses que os postais ficaram prontos, coloquei 300 deles em consignação em diversas livrarias, até agora só foram vendidos 8. Você pensar em viver de poesia nesse país é pra morrer de fome. Ainda bem que eu tenho outros caminhos na minha frente. Está praticamente vendida a casa na Sta. Rita que eu recebi de herança do meu pai, e aí com esse dinheiro pretendo montar um negócio pra mim. As coisas estão clareando finalmente, graças a Deus.
                   O que é essa vida? Eu me pergunto constantemente...Qual o sentido? Por que nós estamos aqui? De onde viemos e para onde vamos? Passamos a vida só na luta pelas conquistas materiais e esquecemos de cuidar da nossa evolução espiritual. Às vezes eu sinto um vazio dentro de mim muito grande. Esses questionamentos, essas dúvidas...Eu sinto que nós viemos de Deus, e que de acordo com a maneira de nos comportarmos aqui, voltaremos para Ele ou não. Mas eu gostaria que as coisas fossem mais claras. Deus nos coloca num emaranhado de sombras, e talvez essa seja a forma dele nos aperfeiçoar.
                   Eu gostaria de poder viver uma vida mais plena, sem tanta mesquinharia. Uma vida perto da natureza, que é o meu alimento. Quanta saudade eu sinto de Lençóis, foi o lugar mais bonito que vi em toda a minha vida; o local tem uma energia fantástica! Eu me senti como nos primórdios da terra!
                   Estou tentando formar um grupo de N.A.(Narcóticos Anônimos), aqui em Recife. Liguei para o N.A. de Salvador e eles ficaram de mandar material a respeito.
                   Perdi os referenciais da vida, estou numa solidão atroz; tendo que evitar os amigos por causa da cocaína e do álcool e sem ter em contrapartida novos amigos por estarem ainda em formação, quer dizer, sei que posso contar com o Mário e com outras pessoas da igreja, mas aqueles amigos que faziam parte do meu referencial de vida tenho que evitá-los. E amizade não é uma coisa que você possa impor, ela surge de afinidades.
                   Ultimamente tenho pensado constantemente em suicídio. Vou falar com Dra. Valéria pra ver se ela receita algum antidepressivo pra mim, mesmo correndo o risco de eu entrar em euforia, quero tentar alguma coisa que amenize esse meu sofrimento; que também pode ter um fundo orgânico, alguma baixa no nível da serotonina. Eu antes não compreendia nem aceitava o suicida, agora sei o que ele sente. Mas antes de me matar, que é uma atitude extremamente egoísta, prefiro ir pra Lençóis e abrir uma pousada lá, que também é uma atitude egoísta, não estaria pensando nem em meus filhos, nem em minha esposa; aliás, para ir pra lá teria antes que me separar dela; isso foi uma coisa que ela deixou bem claro. Mas antes a vida que a morte.
                   Sei que o sentido da vida não está em nenhum lugar do planeta, ele está dentro de nós. Mas tem também o lance da afinidade com o local onde estamos. Eu não tenho mais a mínima afinidade com cidade grande, meu lance atualmente é campo, aliás, há muito tempo que meu lance é campo; e eu tenho que amadurecer bem esta idéia que se descortina na minha frente: Lençóis.
                   Eu estava agora me lembrando do ano de 79, em que eu e meus amigos passamos todos os finais de semana e feriados comendo cogumelo lá em Gaibú. Meu cunhado Rômulo leu no jornal local a respeito de jovens que lá comiam cogumelo, e meu pai que já andava meio desconfiado do que é que eu tanto ia fazer naquela praia; chovesse ou fizesse sol todo final de semana eu tava lá, então resolveu ir até lá investigar. Só que ele deu a desculpa que ia ver se comprava um terreno lá.
                   Bom, saímos então praticamente a família toda na Caravan, eu, papai, mamãe, Rômulo e não sei mais quem, que eu não me lembro agora, sei que o carro estava lotado. Fomos lá pra Gaibú, só que antes de chegar lá, a estrada passava primeiramente num pasto, onde justamente a gente pegava os cogumelos de boi zebu; e quando estávamos passando pelo pasto veio um menino com um saco cheio de cogumelo, ele me reconheceu dentro do carro e saiu gritando: Olha o cogumelo!! Olha o cogumelo!!... Eu procurei um buraco no chão do carro pra me esconder e não achei. Sorte minha que ninguém além de mim, ouviu. É bom esclarecer uma coisa: muitas vezes esses meninos vendiam à gente um saco com 50 a 60 cogumelos por R$ 1,00 a R$ 2,00 em valores atuais, nós não tínhamos nem o trabalho de procurar no pasto.
                   A primeira vez que eu comi cogumelo foi com Tatá, foram dois cogumelos enormes de búfalo, um pra cada um, foi o suficiente. Não conseguimos sair do pasto. Ficamos sentados em dois troncos de madeira. Aí eu dizia pra Tatá: Tatá, vamo pra Gaibú! e ele respondia: É, Gaibú, né Carlinhos! Mas aqui tá tão bom! E eu dizia: É!...5 minutos depois o mesmo diálogo, e isso se repetiu umas quatro ou cinco vezes. Eu imaginava, na minha viagem, Gaibú como sendo um lugar específico em que as pessoas iam pra lá só pra viajar. Pode parecer um diálogo meio mongolóide, mas nós estávamos realmente meio abestalhados com a porta da percepção que tinha se aberto nas nossas mentes. O chão do lugar onde estávamos estava coberto de lascas de madeira, só que na nossa percepção brilhava como o cobre.
                   Aí uma mosca pousou no meu braço, e naquele instante eu percebi que a vida dela era tão importante quanto a minha. Nessa hora a gente estava conversando com um matuto chamado Bezourão, e então eu perguntei pra Tatá: Tatá, por que a gente mata as moscas? Bezourão ficou sem entender nada... Aliás, Bezourão nos contou que já tinha experimentado cogumelo uma vez, chegou em casa aperreado abrindo e fechando o guarda-roupa, aí chegou a mulher dele e perguntou: o que é que você tá procurando, Bezourão? Aí ele respondeu: num sei, num sei, só sei que eu tô procurando!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Em primeira mão (em partes) meu mais novo livro - Ácido na corrente elétrica - Parte I


No princípio criou Deus os céus e
a terra. A terra, porém era sem
forma e vazia; havia trevas sobre
a face do abismo, e o Espírito de
Deus pairava por sobre as águas.
(Gênesis 01:01-02)
                   


                   Não, Não, Não...
                   Eu não quero pensar novamente que sou Jesus Cristo, NÃO PAI! NÃO! Não, eu não quero ser internado novamente, espere, NOVA-MENTE, é disso que eu preciso, uma nova mente, Pai, me dá uma nova mente, essa já foi saturada de muita química meu Pai, renova, renova Pai, renova...
                   Foi muita maconha, quer dizer, maconha nem tanto, foi muita cocaína, muito cogumelo, com certeza eu não sei como estou de volta, foi muito cogumelo, mas foi bom, foi bom, se tivesse que fazer de novo eu acho que faria tudo do mesmo jeitinho.
                   Não sei, falei ainda há pouco em certeza, e certeza é uma palavra tão estranha, né mesmo? De que é que nós temos certeza nesta vida? Nada. Talvez a única coisa que nós temos certeza nesta vida é da morte, dessa ninguém escapa, ninguém!
                   É estranho, né? Vida-Morte, construção-destruição, mudanças, mudanças... Yin-Yang, positivo-negativo, homem-mulher. Tudo nos foi dado, tudo! Nenhuma coisa é má em si mesma, o veneno da cobra que mata, em porções ínfimas pode curar. O mal é o que sai da boca do homem. Claro tem também aquela frase: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas me convêm”.
                   O que todos nós precisamos na realidade é de amor, muito amor. É uma necessidade básica do ser humano, amar e ser amado. Por que tantos andam perdidos por aí procurando no ter a satisfação da alma? Ter, ter, ter, aonde isso tudo vai dar meu Deus? Volta, volta, volta novamente JESUS, vem consertar a tua obra, vem nos ensinar novamente a sermos felizes, vem nos ensinar, tu que és o pai de toda a criação, vem nos ensinar! Vem nos mostrar novamente o valor da mansidão! Maranata! Maranata!

                   Fantástico, Fantástico, esse som que eu estou ouvindo agora! Que PAZ! Que brandura, que mansidão! Como água, como água cristalina correndo dentro de mim... 
                   Sim, mas como eu estava falando, não sei como estou de volta, não sei... Fui muito longe, meu irmão, fui muito longe... É fantástico, o campo da mente, é fantástico! A mente sempre foi uma coisa que me fascinou! Tudo nasce nela, tudo! Tudo que você está vendo hoje em dia, carros, edifícios, estradas; tudo nasceu um dia primeiramente na mente! As portas estão abertas, as portas...O que são as coisas? O cogumelo pra mim foi uma chave que abriu AS PORTAS DA PERCEPÇÃO! Há compartimentos na mente que não são acessados no dia-a-dia, precisam de uma chave para termos acesso a eles. Essa chave pode ser conseguida também através da meditação, mas pra mim na época foi mais rápido usar o cogumelo.
                   Foram viagens insólitas, nasci novamente... índio, índio! Tem um amigo meu, o Ernesto, que na primeira viagem que ele fez saiu com as duas mãos na cabeça andando pela beira da praia em Gaibú, e a gente gritava: Ernesto! Ernesto! E ele nem aí! Depois no final da viagem, a gente se encontrou novamente e perguntamos a ele por que ele não nos respondeu, aí ele disse: “Meu irmão, como é que eu poderia falar com vocês naquela hora? Naquela hora eu tava saindo do OVO!”
                   É uma figura o Ernesto, é uma figura! Fizemos muitas descobertas juntos! Muitas descobertas... Líamos muito, T.S. Eliot, Sá Carneiro, Fernando Pessoa, Camus, Aldous Huxley, devorávamos e devorávamos livros. E engraçado a gente sempre perguntava o que é que o outro estava lendo, e na maioria das vezes estávamos lendo o mesmo livro!

                   É engraçada a vida, o mundo dá muitas voltas, vamos lá, vamos lá, vamos acompanhar o ritmo do mundo, no entanto sabendo que nós temos um limite que devemos respeitar.       

                   Um limite! Um limite!!!

                   Mas o ser humano é forçado a assumir determinados parâmetros de comportamentos de acordo com toda a sua carga cultural.
                  
                   Temos que quebrar os parâmetros! OS PARÂMETROS!!!

                   Fica decretado o fim do PECADO a partir de hoje. A partir de hoje o homem vai ter que aprender a conviver com toda esta imensa liberdade que nos deu o PAI!

                   E fica também decretado o fim de todo mal!!!


                   “O paciente Carlos Maia Assunção necessita de internamento em hospital por se encontrar em estado hipomaníaco e fazendo uso de álcool e drogas. Ainda mantém a crítica, mas se vê por momentos JESUS, BUDA, GENGHIS KHAN, etc... Pede internamento para controlar seus impulsos ao uso de drogas!”

                                                       Dra. Valéria Alcântara
                                                               crm 4935  

Minutos de Sabedoria - Carlos Torres Pastorino


Os conselhos ajudam, não há dúvida...
Mas não se esqueça de que
a solução de nossos problemas está
dentro de nós mesmos,
na voz silenciosa de nossa consciência,
que é a voz de Deus dentro de nós.
Não se deixe enganar: só você será
o responsável pelo caminho que escolher.
Ninguém poderá prestar contas por você.
Procure, portanto, viver acertadamente,
de acordo com sua consciência.

Pg. 05

Minutos de Sabedoria - Carlos Torres Pastorino


Não se aborreça com seu amigo,
só porque ele está mal-humorado.
Saiba desculpar.
Quantas vezes também você está
irritado, e responde mal a seus amigos...
e no entanto gosta que eles o desculpem.
Você não sabe o que lhe aconteceu,
desconhece seus problemas íntimos...
desculpe, então!
Não leve a mal, releve, e continue
a querer-lhe bem.
É a melhor maneira de mostrar
sua amizade e compreensão.

Pg. 228

"Se o meu povo, que se chama pelo meu nome,
se humilhar, orar e me buscar, e se
converter dos seus maus caminhos, então
eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus
pecados e sararei a sua terra."

2º Crônicas 7:14

domingo, 1 de maio de 2011

Meu Deus, me dê a coragem - Clarice Lispector


Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.