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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Ressurreição - Luna Freire


Então renasci. Cruzei a ponte que me separa do abismo. Cindi a nuvem negra em gotas de orvalho. E espalhei nos ventos as cinzas de mim.

Então renasci. Cruzei a ponte que me separa das águas. Amarrei tempestades em navios assombrados. Mergulhei no oceano de mim.


Lancei anzóis num rio de sonhos perdidos. Pesquei um fóssil. Uma pedra. Um sapato. E a sereia sorriu no fundo do mar. Por que sonhos não se pescam, se plantam. E há uma longa espera até a germinação.


Então deitei sementes no solo e no vento. E elas haverão de brotar em mim uma primavera...


Construí novas pontes, para celebrar a passagem.

Construí novas pontes para celebrar a plantação.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Exílio - Luna Freire.


Primeiro, arremessaram-me um tiro ao peito.
Não morri.
O tiro, entretanto, permaneceu dentro de mim como uma pedra.

Então, tentaram arrancar-me a língua.
Não cedi.
Mas a pedra cresceu e fez montanha em minha alma.

Depois desistiram de mim.
E deixaram-me,
com minha língua,
meus olhos,
minhas mãos.

E criaram,
à minha volta,
um abismo de silêncio.

As palavras,
ignoradas,
subiram ao topo da montanha de pedra
em busca do céu ou do mar.
E não havia nada.

Foi quando entendi,
que já não precisariam arrancar-me a língua,
os olhos,
as mãos,
porque tiraram-me as estrelas que me guiavam
e nada que era meu tinha mais serventia.