"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa
domingo, 28 de fevereiro de 2010
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Dançarina Espanhola - Rainer Maria Rilke.

a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.
E logo ela é só flama, inteiramente.
Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com a arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.
Então, como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.
(Tradução: Augusto de Campos)
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Vocação de Poeta - Friedrich Nietzsche.

De escuras árvores, eu, sozinho,
Ouvi batendo, como em cadência,
Um tique, um taque, bem de mansinho…
Fiquei zangado, fechei a cara -
Mas afinal me deixei levar
E igual a um poeta, que nem repara,
Em tique-taque me ouvi falar
E vendo o verso cair, cadente,
Sílabas, upa, saltando fora,
Tive que rir, rir, de repente,
E ri por um bom quarto de hora.
Tu, um poeta? Tu, um poeta?
Tua cabeça está assim tão mal?
- Sim, meu senhor, sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.
Por quem espero aqui nesta moita?
A quem espreito como um ladrão?
Um dito? Imagem? Mas, psiu! Afoita
Salta à garupa rima, e refrão.
Algo rasteja? Ou pula? Já o espeta
Em verso o poeta, justo e por igual.
- Sim, meu senhor, sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.
Rimas, penso eu, serão como dardos?
Que rebuliços, saltos e sustos
Se o dardo agudo vai acertar dos
Pobres lagartos os pontos justos.
Ai, que ele morre à ponta da seta
Ou cambaleia, o ébrio animal!
- Sim, meu senhor, sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.
Vesgo versinho, tão apressado,
Bêbada corre cada palavrinha!
Até que tudo, tiquetaqueado,
Cai na corrente, linha após linha.
Existe laia tão cruel e abjeta
Que isto ainda – alegra? O poeta – é mau?
- Sim, meu senhor, sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.
Tu zombas, ave? Queres brincar?
Se está tão mal minha cabeça
Meu coração pior há de estar?
Ai de ti, que minha raiva cresça!
Mas trança rimas, sempre – o poeta,
Na raiva mesmo sempre certo e mau.
- Sim, meu senhor sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Poema da Aurora - Lena Maria.

Parentesco? Assim somos todos,
embora quase sempre inconscientes disso...
Te sinto ao longe
Nesse espaço
mas sinto de perto tuas angustias
de buscador da alma
que se refugia na poesia
como alimento de resistência
sedento de amor
de explicação
sentindo o vazio da existência
mas se enebriando na dor
como fonte única de sentir-se vivo!
A aurora da humanidade já lança seus sinais
seus raios multicoloridos já permitem
a visão do desmanchar das sombras
em doces esperanças de reconciliação
do ser individual com o Todo
do esquecimento para a lembrança
de quem realmente somos
somos Um na melodia harmônica da existência
a Perfeição está em todo o universo...
toda a dor
é apenas a sombra da pintura
que faz emergir as formas no contraste
A luz se enchergando luz
a partir de suas sombras...
eu sei, é doloroso...
A dor dói muito...
Mas sai um pouco da tua paixão de poeta
e vislumbra a harmonia da criação
reparaste em quanto Amor ?
Aliás, é essa a nossa matéria prima: Amor
Somos centelhas do Amor
o artista supremo marcou assim toda a Sua obra
e se ainda não compreendemos a obra
é porque ainda não "lembramos" do futuro
Futuro?
que espaço de tempo estamos?
Espaço/tempo?
limitações que aceitamos
para realizar este experimento cósmico.
Não tenhas medo de largar a dor
mesmo que isso pareça te lançar no vazio
lança com fé
na prece silenciosa do teu coração
a certeza de levar tua poesia
da escuridão da noite
para aurora da celebração
e sentirás o colo que tanto esperas
no teu próprio colo ofertado
e teu coração em arritmia
entrará no compasso do fluxo divino.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Yacala - Alberto da Cunha Melo.
a moça finge uma limpeza
e esquece o vulto de Yacala,
para olhar tudo sobre a mesa:
gráficos e mapas astrais,
luas em filas, funerais
da luz pela enorme garganta,
e uma bela estrela escolar
desenhada com cinco pontas;
depois as manchas, talvez fotos
feitas por satélites mortos.
(pg. 068)
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Viajante Estelar - Melchiades Montenegro Filho.

refletidas nos teus olhos,
meu coração, a cismar, remói:
- Viajar a uma estrela
é possível a quem ama,
impossível sim, decifrar
no teu olhar as imagens
alcançando uma estrela
Aos impulsos de um suspiro
meu coração acelera,
e no infinito sideral
mergulho nos teus olhos.
Cativo sou dos astros
que ele encerra.
Transporto meu desejo de ti
alcançando uma estrela.
Viajante estelar
nos abismos do cosmo.
Trajetória infinita
de esperança e ternura.
transmutada
no desejo e gesto
de beijar teus olhos
alcançando uma estrela.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Limites do Amor - Affonso Romano de Sant'Anna

nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.
O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:
- ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.
Ele quis morrer para arrasar a morte e voltar.

Pra poder dizer tudo
Que vai dentro de mim.
Esse grito contido,
Essa espera,
São frutos de um mesmo
Sentimento.
Sentir Deus em toda sua
Pureza, perfeição e glória.
Ter uma pequena idéia
Do seu reino
Através das estátuas
De sol em
Uma onda que se quebra
Num mar agitado e tenso...
E de uma aurora
Que se descortina
Em mil cores vivas
Esvoaçando e abrindo
Sua mente em paz.
A paz de uma onda
Que se quebra
Contra o vento e deixa
Uma névoa de música
No seu rastro,
Branca e pura como
A areia ainda intocada;
A paz
De um dia novo que
Começa no coração
Da gente;
Como um sentimento
De uma gaivota
Planando num mar
Límpido e cristalino.
E toda a força
Da chuva
Molhando nossas almas
À beira-mar...
E sentir que tão poucos
Sentem isso.
Carlos Maia
Junho/81
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
domingo, 7 de fevereiro de 2010

está diante de uma possível derrota em um processo
contra a população da Amazônia Equatoriana.
Os indígenas buscam responsabilizar a empresa por
bilhões de galões de material tóxico despejados na floresta.
Mas a multinacional lançou uma campanha de lobby
como último recurso para abafar o processo.
Empresas poluidoras precisam ser responsáveis
pelos seus atos. O novo chefe executivo da Chevron,
John Watson, sabe que a marca da empresa está ameaçada
- vamos fazer a nossa parte gerando um clamor
da opinião pública. Assine a petição abaixo pedindo que
a Chevron limpe seu rastro tóxico,
ela será entregue direto para a sede da empresa,
seus acionários e a mídia dos Estados Unidos!
Para John Watson, o novo CEO da Chevron:
Pedimos à Chevron que demonstre um compromisso genuíno
com as questões ambientais e respeito aos
direitos humanos em todas as suas atividades.
Ao invés de fazer lobby para se esquivar de suas obrigações,
a Chevron deverá se responsabilizar pelos seus atos:
limpar o seu rastro tóxico no Equador,
compensar comunidades afetadas pelos estragos
causados às suas vidas e ao meio ambiente,
e adotar medidas similares ao redor do mundo
para impedir tragédias como esta.
clique aqui e assine !!


e repensarmos o caminho que estamos trilhando...
Por entre os destroços
Ocasionados por nossos
Próprios erros e escolhas,
Fica difícil enxergar
A possibilidade de reconstrução,
Mas isso é o maior de todos os enganos!
Sempre é possível recomeçar!
"No fim tudo dá certo,
Se não está dando tudo certo
é porque ainda não chegou no fim"
(Já diria Drummond ou Quintana,
não me lembro agora)
O importante é que você
Não desista nunca, meu irmão!!!
Mesmo que o horizonte
Esteja tão negro
Que nem possamos enxergar,
É daí justamente que vem a chuva
Que regará as sementes,
POIS A VIDA SÓ QUER
UMA DESCULPA
PRA SER VITORIOSA!!!
Carlos Maia
07/02/10
O Profeta - Khalil Gibran.


disse: Fala-nos dos filhos.
E ele disse:
Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas do desejo
da Vida por si mesma.
Eles vêm através de vós,
mas não de vós,
E apesar de estarem convosco,
não pertencem a vós.
Podeis dar-lhes vosso amor, mas
não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas
não suas almas,
Pois suas almas vivem na casa do
amanhã, a qual vós não podeis visitar,
nem mesmo em vossos sonhos.
Podeis esforçar-vos em ser como
eles, mas não tentai fazê-los como vós.
Pois a vida não volta para trás, nem
permanece no dia de ontem.
Sois os arcos dos quais seus filhos,
como flechas vivas, são arremessados.
O arqueiro vê o alvo no caminho
do infinito, e Ele vos dobra com o Seu
poder para que Suas flechas possam ir
longe e velozes.
Deixai que o Arqueiro vos curve
com alegria;
Pois assim como Ele ama a flecha
que voa, Ele também ama o arco que é
estável.
(pgs. 28-29)
P.S.: Esses são meus dois filhos,
o 1º é Gabriel, está com 25 anos,
e o 2º é Lucas, está com 17.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Projeto de Prefácio - Mário Quintana
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Tateando na noite escura,
Buscando um sentido
Que faça preencher
O deserto de afetos.
A esperança
Já toda rota
Teima em sobreviver.
Após tantas quedas,
Tentar novamente
Acreditar em si mesmo,
Soerguer âncoras e remos
No oceano
Da noite infindável,
Enfrentar o medo antigo
E fundo;
Pois ainda acena
No distante cais,
Um colo,
Um colo...
Carlos Maia
03/02/10