segunda-feira, 26 de julho de 2010

Ganhei Coragem - Rubem Alves


Ganhei coragem

“Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece“, observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo. Albert Camus, ledor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora quando a coragem chega: “Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos“. Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem. Vou dizer aquilo sobre que me calei: “O povo unido jamais será vencido“: é disso que eu tenho medo.

Em tempos passados invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o “povo“ tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo... Não sei se foi bom negócio: o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de televisão que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse, na montanha, para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os 10 mandamentos. E há estória do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante a amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão. Até que ela o abandonou... Passado muito tempo Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos... E que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: “Agora você será minha para sempre...“ Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus. Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta. Mas sabia que ela não era confiável. O povo sempre preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhes contavam mentiras. As mentiras são doces. A verdade é amarga. Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo. No tempo dos romanos o circo era os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo. O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas. As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos. Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro O homem moral e a sociedade imoral observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se “responsáveis“ por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas. Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo, tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo. Meu amigo Lisâneas Maciel, no meio de uma campanha eleitoral, me dizia que estava difícil porque o outro candidato a deputado comprava os votos do povo por franguinhos da Sadia. E a democracia se faz com os votos do povo... Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. É sobre esse pressuposto que se constrói o ideal da democracia. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições – e a democracia - são os produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras. O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é o ideal democrático, que eu amo. Outra coisa são as práticas de engano pelas quais o povo é seduzido. O povo é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham. Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus Cristo foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás. Durante a Revolução Cultural na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer. O mais famoso dos automóveis foi criado pelo governo alemão para o povo: o Volkswagen. Volk, em alemão, quer dizer “povo“...

O povo unido jamais será vencido! Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos... Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio, não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol (tive a desgraça de viajar por duas vezes, de avião, com um time de futebol...). Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e engolir sapos e a brincar de “boca-de-forno“, à semelhança do que aconteceu na China.

De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção...“ Isso é tarefa para os artistas e educadores: O povo que amo não é uma realidade. É uma esperança.

(Folha de S. Paulo, 05/05/2002)
Fonte: http://www.rubemalves.com.br/ganheicoragem.htm

6 comentários:

Luna Freire disse...

Não gostei. Preconceituoso e cheio de falácias. O povo de quem ele fala é o povo condicionado por um sistema, uma mídia... O problema não é o povo. Mas a mentira sobre a qual ele é obrigado a assentar. E quem disse que o povo não pode gostar de Bach, de Mozart, de poemas? O que não há é oportunidades para que o povo os conheça...

Poeta Carlos Maia disse...

Que o povo possa a vir gostar de Bach, Mozart e poemas, concordo com você; haja visto a orquestra dos meninos de São Caetano. Mas a realidade em nosso país é bem diferente, o que impera é a mediocridade e o vulgar. E eu acho que a classe dominante não está nem um pouco interessada em mudar isto.

Luciana Amâncio disse...

O preconceito vai volta... lembro que meus amigos revolucionários, na adolescência, me agrediam por gostar de ouvir Bossa Nova e Bach. Depois, a primeira comunista com quem convivi, era violinista, seus pais, militantes, eram educadores dos Sem-Terra. Descobri que o poeta Neruda era comunista... Achei bobagem, então, chamarem algo de "Cultura Burguesa". Cultura é Cultura, ora essas! E se a arte alimenta a alma, que o povo se farte de arte e pão!
Entendo Rubem Alves...
Sei que ele não está dizendo "pobres" quando diz "povo", como o fazem os sociólogos e os políticos progressistas de plantão que, supostamente, promovem uma soberania popular, mas se colocam efetivamente como classe a parte.
Quem são os sujeitos de nossa História?
E o quanto cada um de nós presta-se à condição de objeto da História?

Enfim... São muitas as questões.

Poeta Carlos Maia disse...

Eu até vou mais além nessa questão, sabe Lú. E peço desculpas a quem por acaso goste de brega, de chamar um gosto mediocre. Que direito tenho eu de julgar o que é mediocre ou não?
Eu acho que temos de respeitar as diferenças. Só não me peçam pra conviver com quem gosta de brega. Também temos direito às nossas escolhas, acho que aí é uma questão dos semelhantes se atraem, ao contrário da lei da física. Mas sabe o que eu acho mais absurdo é o voto do analfabeto! Ao invés de acabar com o analfabetismo (o que não é de nenhum interesse à classe dominante), eles criaram essa preciosidade!!!
Quanto mais burro e inculto o eleitorado mais fácil de manipulá-lo! Enfim...Como vc disse: São muitas as questões!

Monipin disse...

Até me emocionei quando li este texto do querido e genial Rubem Alves... Como é bom saber que não somos os únicos a pensar desta forma! Não tenho a mesma idade que ele, mas já vivi o suficiente para ter a coragem de dizer em alto e bom som o que sinto, sem qualquer constrangimento: "democracia" é uum conceito vazio, usado irresponsavelmente por alguns indivíduos sem escrúpulos, no jogo perigoso da disputa pelo poder. Pena que o ser humano ainda não tenha inventado nada melhor que isso para se organizar politicamente. Rubem Alves tem razão: isso é tarefa para os artistas e educadores... Haja tempo. Haja paciência.

Poeta Carlos Maia disse...

Cara Monipin:

Que bom que o Rubem Alves chegou até vc através do meu blog! Eu também adoro este escritor, pra mim é um dos melhores de todos os tempos!!!

Beijo Grande!!!